OPINIÃO

Cavaco e as indisposições

Sei o que vão pensar: “o homem sentiu-se mal, coitado!” Sim, até pode ter sido, mas no final vão concordar comigo que foi uma indisposição com um timming perfeito.

Façam um exercício de memória comigo. Primeira indisposição de que me recordo de Aníbal Cavaco Silva foi na tomada de posse de Guterres. Após mais de uma década de Cavaco como chefe de Governo, Guterres leva o PS à vitória nas legislativas. Com as atenções concentradas no novo primeiro ministro e no que ele iria dizer de suas intenções para o país, a indisposição e/ou desmaio de Aníbal vira o foco das objectivas para o algarvio.

Quem não se lembra do episódio da Escola António Arroio? A comunicação social, tendo tido conhecimento da quantidade de alunos que esperavam o Presidente naquele estabelecimento de ensino para lhe manifestar a sua indignação, e tendo o exemplo de quando Pedro Passos Coelho por lá tinha passado, está de olhos postos na escola. São inúmeras as reportagens a partir daquela escola de Lisboa. O que faz Cavaco? Cancela, à última da hora e sem explicação, a visita à escola. Muitos especularam que poderia ter sido uma indisposição do Presidente (a par dos que disseram que teria sido receio de enfrentar a multidão). A ser verdade, mais uma indisposição bastante conveniente.

Hoje, perante um público que queria saber o que tinha o Presidente a dizer, após mais um chumbo do TC e após, mais uma vez, o Governo ter ameaçado com subida de impostos (mesmo depois do próprio Presidente ter dito que os portugueses não aguentavam mais austeridade e que estavam no limite), aconteceu o que se viu. Quando, ao mesmo tempo que se ouvia o discurso presidencial e os sindicalistas protestavam junto dos populares, Cavaco sentiu-se indisposto e foi amparado pelos oficiais das Forças Armadas que consigo partilhavam o palco das comemorações do 10 de Junho. E, num ápice, deixou de ser o Presidente que ignora os problemas do povo e não demite o Governo para o “coitado do Cavaco, que se sentiu mal”. Até os jornalistas deixaram de parte as perguntas incomodativas para ensaiar um “Sr Presidente, como se sente?” ou “Sr Presidente, já está melhor?”

Acho que seria demais dizer que aquilo foi ensaiado – demais até para Anibal Cavaco Silva. Acredito que ele até se tenha mesmo sentido mal, assim como da(s) outra(s) vezes. Mas que que bastante conveniente, isso foi.

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